Dedicado a Ana Carolina, inspirado em prosa sua de 2013.
Lentamente elas foram se enrolando
Em mim até chegar no tornozelo,
Imóvel e agitado me deixando...
As espirais! que horrível pesadelo!
Tomou essas formas o meu passado
-- qual cobra, matando-me sufocado --
Pra que não mais eu pudesse esquecê-lo.
Foram junto à minha carne vermelha
Se fundindo, aos poucos, as espirais,
Numa dor terrível -- nova, mas velha --,
Abrindo chagas que nunca vi iguais...
E os antes despercebidos detalhes
Das coisas passadas, esses entalhes
Mostraram-me. Pude entendê-las mais.
Como pude haver estado tão cego?
Cego de mim mesmo, vivi no escuro!
Mas na mãos da metamorfose entrego
Todos os acasos do meu futuro.
Metamorfose que, se interrompida,
Preso eu ficaria por toda a vida,
Dentro desse impenetrável casulo...
