sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Necromante

Conheci um homem que dizem ter
O poder de acordar quem já dormiu.
Um sopro, e acorda mesmo quem já
No chão se esmigalhou, e por não ter
Mais seu casaco de pele, no frio
Do jardim de flores brancas, está.

Esse homem pode aquecê-los! -- Eu
Ouvi grandes coisas sobre ele quando
Ainda podia ouvir, e por isso
Hoje, chamei por ele... e respondeu:
"Foste quem ouvi por Ela chamando,
E Ela leva a sério os seus compromissos..."

"Mas, veja! Eu não estava preparado
Presse vazio que me esperava aqui...
Oh necromante, tem pena de mim!
Eu fui ingrato ao dom que me foi dado
Pelo univeso, eu sei! Mas, enfim, vi
Que viver não era tão ruim assim!

E, necromante, eu já fui esquecido!
Todos os meus amigos e parentes
Viveram, alheios a quem morreu...
Sopre a vida de novo em meus ouvidos!
Dessa vez, farei tudo diferente...
Eu só preciso de um sussurro teu!"

domingo, 10 de novembro de 2019

Asas Refeitas

Dedicado a Ana Carolina, inspirado em prosa sua de 2013.

Lentamente elas foram se enrolando
Em mim até chegar no tornozelo,
Imóvel e agitado me deixando...
As espirais! que horrível pesadelo!
Tomou essas formas o meu passado
-- qual cobra, matando-me sufocado --
Pra que não mais eu pudesse esquecê-lo.

Foram junto à minha carne vermelha
Se fundindo, aos poucos, as espirais,
Numa dor terrível -- nova, mas velha --,
Abrindo chagas que nunca vi iguais...
E os antes despercebidos detalhes
Das coisas passadas, esses entalhes
Mostraram-me. Pude entendê-las mais.

Como pude haver estado tão cego?
Cego de mim mesmo, vivi no escuro!
Mas na mãos da metamorfose entrego
Todos os acasos do meu futuro.
Metamorfose que, se interrompida,
Preso eu ficaria por toda a vida,
Dentro desse impenetrável casulo...


sábado, 9 de novembro de 2019

Meu Querido Amigo

Pronde foste, oh, meu querido amigo?
Que tanta coisa do mundo queria!
Que tantos sonhos levava consigo,
Que nada comigo se parecia...
Pronde foste, oh meu querido amigo?
Se eu soubesse, tão mais feliz seria!

Pronde foste? Diz-me, e calo... Pra onde?
Encontrar-te de novo é o que mais quero.
Chamo por ti, mas nunca me respondes...
Por isso, sonho contigo e espero
Achar e conseguir cruzar a ponte
De volta pra esse mundo paralelo!

"Num sonho vi, oh, imagem futura,
Uma ponte em que se lia "incruzável"!
E um miserável tu, que em vão procura
Por si mesmo, uma busca interminável!
Estou aqui! Minh'alma está segura
Mas a tua... Porque tão vulnerável?"

Oh, se queres saber, fique comigo!
Falaremos até de madrugada...
Viver sem o teu riso eu não consigo,
Sem teu olhar feliz, eu não sou nada!
Minh'alma sangra, meu querido amigo,
Pois a sorte da tua está selada!

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Olhos Daltônicos

A luz do sol os meus olhos não veem
Como os outros veem, e eu via outrora.
Foi pintado com cores muito além
Das que eu posso ver, o mundo lá fora.
Até o antigo futuro, um jardim
Antes cheio de rosas carmesim,
Não passa de terra batida agora.

E a cor repugnante dos espinhos
Espalhou-se pras pétalas das rosas
Dos canteiros que ornavam meu caminho
Cinzento, antes de cores tão vistosas...
E de que obra de arte serão tema
As simples rosas? -- Não são mais dilemas:
Não são também belas, só espinhosas!

Mas se um dia me virdes rir, atônito,
É que, por acaso, o véu foi rasgado
E floresceu nos meus olhos daltônicos
Aquele meu jardim abandonado...
E esse milagre, 'inda hoje aconteceu,
E as rosas coraram, e os olhos meus
Foram pelos raios de luz tocados.

Nessas horas, no meu peito, desponta
Uma fênix, mas em desalento
Regressa ao ninho assim que me dou conta
Que às cinzas tornarei em pouco tempo...
Mas sempre que as cores consigo ver
Eu penso: sim, vale a pena viver
Somente se através do véu cinzento!