terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O Viajante (Um brinde a Bathin)

Montei em seu cavalo, e de repente
Tudo a minha volta havia mudado.
Sorri. -- Vi que havia sido levado
Pelo viajante até o Oriente.

Me vi rodeado por diferentes
Línguas, que falavam por toda parte...
Vi do dragão brilhar o áureo estandarte
E os raios vermelhos do sol nascente!

Oh, viajante! Que sorte é amar-te
Pois sou também pátrio do mundo inteiro!
E no Oriente dancemos primeiro,
Mas podes levar-me, depois, a Marte?

Por entre risos, sussurrou: "Segura
Firme no cavalo, que o mundo é nosso!
Levo-te a onde quiseres; mas posso,
Se caíres, te levar à loucura!"

"O mundo é nosso!" E logo, em disparada,
Saiu galopando, comigo atrás;
"Leve-me pra onde quer que haja paz!"
"Certo! É nossa próxima parada!"

"Bathin, Bathin!" Eu disse, "Devagar!
E se o vento me derrubar daqui!?"
"Acalma o teu coração... Logo ali
A paz está... Não pare de sonhar!"

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Haraquiri

Ser desonrado é por uma serpente
Ser pego à noite, e 'inda agonizar cedo...
Isso ouvi na terra do sol nascente.

Um samurai vive na minha mente,
E diz: "Da desonra, sim, tenhas medo,
Pois a desonra é como uma serpente!

Eu sei! Tenho visto como te sentes.
Manterei tua desonra em segredo,
Mas escute a terra do sol nascente."

Meu Jisei, escrito na minha frente,
Não poderei recitar... Tenho medo
Da minha desonra, dessa serpente!

Mas a última dor, honradamente
Sentirei, e em Yomi hei de andar ledo.
Isso ouvi na terra do sol nascente.

Cravei então o Tanto no meu ventre,
E que honrado fim... lembrança do Edo!
Livrei-me da desonra, da serpente,
Isso ouvi na terra do sol nascente!

Seppuku, ou Harakiri

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Banquete

Esses anjos não são homens; são bestas!
São criaturas da terra e do mar,
São os antigos deuses das florestas
Que há muito nós soubemos adorar.
Oh, os anjos são muitos! E hoje, em festa
Estão, no meu quarto, pois de sangrar
Cansaram-se, e por isso, lá do céu
Trouxeram a cabeça de Miguel!

Cantavam e dançavam, como amigos,
Jogando a cabeça de cá pra lá...
Depois, como faziam os antigos
Índios das tribos dos tupinambás,
Comeram a carcaça do inimigo!
E de uma boca cheia, ouvi: "Será
Que por ele, os derrotados virão?
Pois nada mais resta que os pés e as mãos!

'Os humilhados serão exaltados',
Assim um deus fraco um dia falou,
E exaltados fomos! pois humilhados
Éramos, e quando a guerra acabou,
Foi o nosso estandarte ensanguentado
Que no céu foi erguido, e quem olhou
Pra cima, viu da batalha o final:
Cem mil voando em marcha triunfal!

Duzentas mil asas negras batendo,
Duzentos mil pés numa alegre dança;
E aquele que há muito nos viu descendo,
Viu-nos subindo em busca de vingança,
E em glória estamos! Sim, hoje eu entendo
Do Diabo aquela perseverança...
'Irmão', disse a Miguel, 'Espere e veja...
Terei teu pescoço numa bandeja!'"


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O Pequeno Poeta (Um brinde a Ronove)

O pequeno poeta se aproxima!
Com suas asinhas pretas e o seu
Cajado nas mãos ele apareceu
Enquanto eu escrevia, e pôs em cima
Da minha mão a sua mão franzina
Guiando a minha pena no papel...

E essa pena com que eu escrevo vem
Das asinhas desse mesmo poeta,
E em minhas mãos fulgura, violeta,
Enquanto escrevo, e me queima também,
Mas ele diz: "Não a deixarás sem
Que a última linha esteja completa..."

Que dádiva que tenho! e meu Mecenas
Chama-se Ronove, mas diz ser "Ben".
"Meu apelido", diz, "que digo a quem
Me queima jasmim, e me corre a pena
E por minha queda do céu, não pena,
Mas sim simpatia e respeito tem!

Olha-me no olhos então, quand'eu
Falo contigo, e te ensino a secreta
Arte da poesia! -- A luz violeta
Só brilha por puro talento teu!
Sem formalidades! Sou também teu
Amigo, um também pequeno poeta!"