quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Porcelana

Com seus olhos de vidro bem abertos,
Quase como se estivesse desperto,
Olhava o boneco de porcelana.
Seu corpo tão frágil, gélido e pálido,
Há muito tempo, creio que foi cálido;
Hoje, mais nenhum calor dele emana.

Tinha a mais estranha das expressões:
Expressão nenhuma! -- As emoções
Não foram pintadas na porcelana...
E os seus olhos de vidro que me olhavam
-- Cheguei mais perto -- Nada eles mostravam.
Nada que me lembrasse a alma humana.

Olhamo-nos até que, enfim, notei
Que a porcelana estava se rachando
E que nada mais podia ser feito...
Murmurei um "Adeus!" e me afastei
E no caminho, fui imaginando
Algo que desapertasse o meu peito...

"Será que se eu ficasse e as rachaduras
Quebrassem-no, de dentro sairia
Uma mariposa voando ufana?
Como eu gostaria! -- Será loucura?
Querer que de um boneco a pele fria
Só fosse um casulo de porcelana?"


Mariposa





quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Meu Son(h)o Eterno

Sempre tão pouco dura a eternidade!
Sempre são só sonhos contraditórios...
Acordei. — Veja que a felicidade
Nunca me é permitida... E do ilusório
Oblívio, hoje me restam só saudades!
E até que volte, eu durmo: é o provisório
Vazio que eu procuro, um sono sem sonhos...
Ou outros com Ela! e acordo risonho!

Naquela noite, Ela — de fato — veio
Pra me abençoar com a sua santa
Gadanha... Senti ir vertendo ao seio
O Estige, d'uma incisão na garganta...
Tornava-se real meu velho anseio:
Encontrar a suprema governanta
Do palácio do sono imperturbável
— Que o meu andava, mesmo, meio instável.

Vi levar consigo minh'alma inerte
Até onde luz já não mais havia.
Me disse: "Apaguei, pra que não despertes."
Ora, vermelho infernal não veria,
Tampouco tom algum de azul celeste...
Me contentei. — Não vi a luz do dia,
Nem da noite o luar, e finalmente
Meus olhos descansei — e a minha mente.

Logo, também, falharam meus ouvidos;
Quase não escutava a voz da Morte
Dizendo: "Vê, já perdes teus sentidos:
Agora, dorme..." E me foi muita sorte!
Que inconveniência teria sido
Ouvir as trombetas soprando forte
No céu, ou terríveis gritos no inferno!
Não! Nada perturbou meu sono eterno...

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Morte

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Biomas Oníricos

Estive numa floresta encantada
Onde voavam livres lindas fadas
Qual borboletas... brincando contentes;
Era uma floresta carnavalesca,
Soprava no rosto uma brisa fresca
E ouvi das árvores rindo duendes!

Ia pra onde levavam-me as pernas
E era infinito... a primavera eterna!
Os dourados raios pelas folhagens
Brilhavam! Vi as mais coradas flores
E frutas – Pude sentir os sabores,
Pensava: mas que agradável miragem...

...O quê? Pra onde foi a primavera?!

Turvou-se o — antes cristalino — rio,
E a brisa tornou-se o vento mais frio,
Algo estava perturbando-me o sono!
A luz se acinzentou num tom estranho
E as folhas ganharam um tom castanho,
Mudara a estação! Do nada, era outono.

Do chão, vi tomarem forma fantasmas
E uma névoa de tão torpes miasmas...
Pobres duendes! ia adoecê-los.
Eu vi no lago lodoso e no ar
Faces demoníacas! — Que lugar
Nefasto, o pântano dos pesadelos...

Se um dia sonhares com tal floresta
Sorria! Dance! Sim, junte-se a festa
De lá dos serezinhos diminutos...
Saiba: quando muito alegre te sentes
– Qual eu, quando coas fadas e os duendes –
De alegria restam poucos minutos!

Floresta Encantada



O Cemitério

Tarde de verão, fui ao cemitério
Deitar-me ali, de estranhos à guarida
Banhei-me do silêncio e do mistério
Das histórias por mim nunca vividas.

Pensava sobre a morte e sobre a vida
Enquanto dava às cruzes meu critério.
Apesar da atmosfera temida,
Tudo é terreno lá, nada é etéreo.

O chão, os ossos, as marmóreas cruzes
São matéria, da terra são minérios.
É leito — por qual sono a alma nutre
quando lá me deito! — o cemitério.

Tão felizes os corvos e os abutres
Vi voando naquele céu cinéreo...
Vereis ao se apagarem vossas luzes:
Eternamente terno é o cemitério!

A Visita

Bateu à porta com sua gadanha
Toda enrolada num manto vermelho
Uma senhora que, de tão estranha,
Derrubou-me, assustado, de joelhos.
Disse: "Sou a morte, quem te acompanha
Desde o teu nascimento, e te aconselho
A vir comigo. Morreste!" Senti
Pavor do que quer que estivesse ali.

Ela me disse: "Olhe ali, no espelho!
A velhice amostra num jovem pajem.
A tua hora chegou, e o meu conselho
Se não seguires, por não ter coragem,
Levo-te então a força... Me assemelho
A uma ave de rapina!" — E a imagem
Que vi no espelho era, mesmo, senil.
E ao meu olhar, a senhora sorriu,

E meteu a gadanha bem no centro
Do meu peito, e a mais terrível dor
Senti ao ver a arma peito adentro,
Mas... outro corte? — Logo, era torpor.
E ao sangue que saía lá de dentro,
Ela sorriu; e disse, ao ver a cor:
"Vê teu sangue jorrando tão escuro?
Sou da tu'alma o desejo mais puro!"

Então no manto vermelho brilhante
Verteu sangue negro... E ela adorava!
E ria! (Em histeria contrastante
À solenidade que eu esperava
Por ouvir dos modos da Morte antes!)
Então se, antes, pouco eu desconfiava,
Logo vi que algo não estava certo
Naquela coisa, ao vê-la bem de perto...

Espere... Olhe em volta...
É a luz do sol que entra pela janela!

Foi dando a noite então lugar ao dia,
E o manto foi se transformando em penas
E o sangue em mim secou, e eu não morria!
Sentia-me triste e cansado apenas,
E um pássaro virou! e eu percebia
Que a situação era mais amena:
Não tinha vindo a Morte me buscar,
Mas outro alguém de mim se alimentar.

Me ouviu dizendo que a Morte demora
A me buscar, o pássaro infeliz;
E se disfarçou de Morte-Senhora
A fim de cativar-me! — É boa atriz.
A conheço bem, pois não é de agora
Que me aflige... é chamada Cocatriz,
E nada sei de sua natureza,
Nada além de que em mim vê fácil presa!

Assim, depois de desfeita a ilusão,
A Cocatriz voou para a janela,
D'onde, empoleirada, o meu coração
Fitou, como quem olha pra tigela
D'onde em seguida comerá a ração.
Ora, que venha, eu espero por ela!
Quando vier -- força vital consome --,
Há de achar-me morto e morrer de fome!

Voa, voa pra longe, bicho imundo!
Que o sol no céu já brilha, e o direito
De existir, não tens mais! Foste oriundo
De algum portal noturno, já desfeito...
E o corte que fizeste, tão profundo,
Já nem existe mais: eis o meu peito!
E se voltares, te terei vingança,
Não pela dor: pela falsa esperança...

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Cocatriz

domingo, 15 de setembro de 2019

A Corte Do Rei Yama

N'outra vida fui da China um feirante
De peixes. — Ia a lugares distantes
Vendê-los, cansado e cheio de escamas!
Mas fazia o trabalho com maestria
E amava aquela vida que vivia,
E era casado co'uma bela dama!

Minha amada se chamava Meifeng,
Éramos pobres, mas ricos também,
Pensava: "A riqueza: Meifeng me ama!"
Pouco dinheiro o trabalho rendia
Mas ia trabalhar, dia após dia,
E nunca fui do tipo que reclama...

Mas em casa, um dia, ao voltar da feira
Tropecei e bati na cabiceira
A fronte: ali morri, na nossa cama!
Muito chorou Meifeng! — E o funeral
Foi lindo! do jeito tradicional,
Mas sem muita gente: não tive fama.

No mundo dos mortos, cheguei, tranquilo;
Me encontrei co'um... não sei o que era aquilo!
Quase um demônio! E eis que, então, declama:
"Viveste uma vida justa!" — E termina
Assim, a vida que vivi na China
Co'a aprovação da corte do rei Yama!

Yama, ou Yanluo

sábado, 14 de setembro de 2019

A Peste

Num canto dum porão empoeirado
Eu morava, com outros animais.
Dos ratos mais haviam me irritado
O barulho e as doenças mortais.
Não tardei a cair adoentado
Na cama... e não queria viver mais.
Um morto-vivo! Ora, uma sentença
De morte. — Era a pior das doenças.

Mas eis que abriu a porta de repente
Uma estranha figura... e ela dizia:
"Sou eu teu salvador: estás doente,
E honrado és pela minha companhia."
Pensei que fosse outro anjo dissidente
Que, pra curar-me, minh'alma queria!
Tirou o capuz, enfim, nada dizendo,
E aproximou de mim seu rosto horrendo...

E co'um suspiro que me trouxe ao rosto
Um aroma de cravo e de hortelã,
No ouvido, me disse: "Estava disposto
A tentar, mas não passas de amanhã.
Em breve, te acho morto e decomposto,
E aqui, te enterrarei pela manhã..."
Do seu bico, esperava ouvir da cura;
Mas ouvi da verdade, 'inda que dura.

Mas logo foi-se também tal figura,
E todas as outras, e todo o resto;
No mundo, não restou sã criatura:
Pela peste, houve os idos a protesto
E os que a aceitaram, de tanta amargura!
Oh, malditos ratos! tão mais modestos
Que os corvos-doutores — Lhes digo eu...
E assim, findou-se a guerra: o mal venceu.

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Médico da Peste

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Tormentas

Que tanto chora o céu? — Ora, eu me atento
À dor com que ele cai e me consome;
Ouço Leviatã chamar meu nome,
Sim! Que do mar, escuta o meu lamento!

Devorai-me então, oh ventos vorazes!
Como farão logo as feras marinhas...
Oh tormenta, tanta saudade eu tinha
Do naufrágio! dos desastres que trazes!

Não! Não me procurem, oh meus amigos!
Não hão de em terra firme me encontrar,
Pois a casa da serpente do mar
Será pra todo o sempre o meu abrigo!

E às tormentas vindouras: Não tardeis!
Minh'alma espera, inquieta, a vossa vinda;
Que possais destruir-me mais ainda
Quando as nuvens chegarem outra vez!

Leviatã

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O Menestrel

Às vezez, me pergunto... quem fui eu?
Fui eu apenas outro menestrel?
Fui eu a penas morto no papel?
Ou fui eu desse mundo o próprio Deus?

Perdida a minha razão, eu suponho
Então, que aqui junto do meu jazigo
Coube, inteiro, o mundo... morreu comigo!
E a vida minha não passou de um sonho!

Dádiva Amaldiçoada

Do céu vi uma pena negra caindo
E vi que a ave nenhuma pertencia.
Creio, se desprendeu naquele dia
Das asas d'um arcanjo — Do mais lindo!

Mas o que co'a pena escrevi sorrindo
Tão triste e funesto me parecia...
Por fim, decidi que em minha poesia
Tais sentimentos eram, sim, bem-vindos.

Mas como pode esssa pena que escreve
Das coisas que em mim sinto tão pesadas
Correr tão tranquila, nas mãos tão leve?

Ora, ela é dádiva amaldiçoada,
É o presente do arcanjo a quem se atreve
A crer na poesia — nela, e em mais nada.

A Cocatriz

A cocatriz há muito está a espreita
Do meu quarto... Esse pássaro é
Abutre que não partirá até
Que consuma essa alma putrefeita...

"Cococoró! Eis a presa perfeita,
Um'alma que não mais que lixo é!
E a que esconjuro estari'eu sujeita
Se dito em tuas palavras sem fé?"

A Cocatriz! Ela é uma ave canora
Que a todos que canta, deixa doente.
Depois de ouvi-la cantar, simplesmente
Nunca voltei a ser quem fui outrora…

Quando ouço o bater das asas lá fora
E a sua sombra cobrindo o crescente,
Já sei que ela chegou. -- Não vai embora,
Pois é seu ninho a minha própria mente!

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Cocatriz

Masmorras Inalcançáveis

No mundo há masmorras inalcançáveis
Em castelos feitos de carne e ossos,
Tão singelos são e, sobre os pescoços,
No fundo, estão presos uns miseráveis.

Miseráveis! Como sereis libertos
Das masmorras sujas em que estão presos?
"Sem que morras, esses teus malfazejos
Incuráveis, não se irão! — És liberto
Só se os frágeis portões teus são abertos
E às masmorras rastejam percevejos!"