Bateu à porta com sua gadanha
Toda enrolada num manto vermelho
Uma senhora que, de tão estranha,
Derrubou-me, assustado, de joelhos.
Disse: "Sou a morte, quem te acompanha
Desde o teu nascimento, e te aconselho
A vir comigo. Morreste!" Senti
Pavor do que quer que estivesse ali.
Ela me disse: "Olhe ali, no espelho!
A velhice amostra num jovem pajem.
A tua hora chegou, e o meu conselho
Se não seguires, por não ter coragem,
Levo-te então a força... Me assemelho
A uma ave de rapina!" — E a imagem
Que vi no espelho era, mesmo, senil.
E ao meu olhar, a senhora sorriu,
E meteu a gadanha bem no centro
Do meu peito, e a mais terrível dor
Senti ao ver a arma peito adentro,
Mas... outro corte? — Logo, era torpor.
E ao sangue que saía lá de dentro,
Ela sorriu; e disse, ao ver a cor:
"Vê teu sangue jorrando tão escuro?
Sou da tu'alma o desejo mais puro!"
Então no manto vermelho brilhante
Verteu sangue negro... E ela adorava!
E ria! (Em histeria contrastante
À solenidade que eu esperava
Por ouvir dos modos da Morte antes!)
Então se, antes, pouco eu desconfiava,
Logo vi que algo não estava certo
Naquela coisa, ao vê-la bem de perto...
Espere... Olhe em volta...
É a luz do sol que entra pela janela!
Foi dando a noite então lugar ao dia,
E o manto foi se transformando em penas
E o sangue em mim secou, e eu não morria!
Sentia-me triste e cansado apenas,
E um pássaro virou! e eu percebia
Que a situação era mais amena:
Não tinha vindo a Morte me buscar,
Mas outro alguém de mim se alimentar.
Me ouviu dizendo que a Morte demora
A me buscar, o pássaro infeliz;
E se disfarçou de Morte-Senhora
A fim de cativar-me! — É boa atriz.
A conheço bem, pois não é de agora
Que me aflige... é chamada Cocatriz,
E nada sei de sua natureza,
Nada além de que em mim vê fácil presa!
Assim, depois de desfeita a ilusão,
A Cocatriz voou para a janela,
D'onde, empoleirada, o meu coração
Fitou, como quem olha pra tigela
D'onde em seguida comerá a ração.
Ora, que venha, eu espero por ela!
Quando vier -- força vital consome --,
Há de achar-me morto e morrer de fome!
Voa, voa pra longe, bicho imundo!
Que o sol no céu já brilha, e o direito
De existir, não tens mais! Foste oriundo
De algum portal noturno, já desfeito...
E o corte que fizeste, tão profundo,
Já nem existe mais: eis o meu peito!
E se voltares, te terei vingança,
Não pela dor: pela falsa esperança...
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Cocatriz
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