Num canto dum porão empoeirado
Eu morava, com outros animais.
Dos ratos mais haviam me irritado
Dos ratos mais haviam me irritado
O barulho e as doenças mortais.
Não tardei a cair adoentado
Na cama... e não queria viver mais.
Um morto-vivo! Ora, uma sentença
De morte. — Era a pior das doenças.
De morte. — Era a pior das doenças.
Mas eis que abriu a porta de repente
Uma estranha figura... e ela dizia:
"Sou eu teu salvador: estás doente,
E honrado és pela minha companhia."
Pensei que fosse outro anjo dissidente
Que, pra curar-me, minh'alma queria!
Tirou o capuz, enfim, nada dizendo,
E aproximou de mim seu rosto horrendo...
E co'um suspiro que me trouxe ao rosto
Um aroma de cravo e de hortelã,
No ouvido, me disse: "Estava disposto
A tentar, mas não passas de amanhã.
Em breve, te acho morto e decomposto,
E aqui, te enterrarei pela manhã..."
Do seu bico, esperava ouvir da cura;
Mas ouvi da verdade, 'inda que dura.
Mas logo foi-se também tal figura,
E todas as outras, e todo o resto;
No mundo, não restou sã criatura:
Pela peste, houve os idos a protesto
E os que a aceitaram, de tanta amargura!
Oh, malditos ratos! tão mais modestos
Que os corvos-doutores — Lhes digo eu...
E assim, findou-se a guerra: o mal venceu.
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| Médico da Peste |
