domingo, 27 de outubro de 2019

Amante Das Nuvens (Um brinde a Stolas)

Sangra um pouco mais, papoula ferida!
Essas gotas que do teu caule caem
São todas as amarguras que saem
Por algumas horas da minha vida!
Chora um pouco mais, papoula ferida!
Chora... Chora tu, pra não chorar eu.
Tuas lágrimas amargas são mel
Que traz aos homens os sonhos mais doces,
O mel que o Stolas, o príncipe, trouxe
Consigo, pra nós, ao cair do céu!

Oh, céu! Negrume tão claro e brilhante!
As tuas nuvens... Onde elas se escondem?
"Ora, estão num outro plano; de onde
Eu vim, e pra onde irás num instante!"
As nuvens são as mais belas amantes
Que aos céus pedi, numa noite estrelada;
Pedi a paz de uma mente nublada,
E me atendeu! -- mandou logo em seguida
O ópio, salvação da minha vida,
Nos pés de uma coruja coroada...

"Não quero mais enxergar as estrelas
Enquanto me cegar o brilho delas
E eu não conseguir fechar as janelas!"
E o anjo diz: "Beba, se não quer vê-las,
Do mel que te dou... Verás que as estrelas
Do céu cairão direto no mar!
E logo que a primeira hora passar,
Tua mente estará longe daqui..."
"Avise então ao mundo que parti,
Mas que, de manhã, aqui devo estar!"

"Até lá te levarei, mas cuidado!
Às vezes os visitantes se esquecem
De regressar, e as nuvens escurecem
E presos eles ficam do outro lado..."
"Se, de manhã, eu não houver voltado,
É porque, ao sentir a forma mais pura
Da felicidade, para a amargura
Do mundo terreno, não quis voltar.
Diz então pra quem quer que ouse tentar
Me achar, que morra também de doçura!

Ópio