quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Sangria

Co'um punhal fincado em meu coração,
Caí, sem poder respirar direito.
Toquei-o, e ao leve toque da mão,
Já senti uma dor aguda no peito...
Mas punhais precisam ser arrancados,
Ninguém deve morrer apunhalado,
A um corpo íntegro, todos têm direito.

Enfim, co'um grito que rasgou os céus
Arranquei-o! -- Pude ouvi-lo tocando
O chão, mas não pude encontrá-lo! O véu
Da realidade ia se rasgando...
Nem mais no peito sinal dele havia,
E a noite havia se tornado dia,
E de mais nada estava me lembrando...

Ou será que o punhal nunca existiu
E toda aquela angústia que eu sentia
Nada mais foi que um delírio febril?
Não, lembro-me bem daquela sangria...
Pode ser que, no calor do momento,
Não o arranquei: o empurrei mais pra dentro,
E, por dentro, 'inda sangro todo dia!