quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Banquete

Esses anjos não são homens; são bestas!
São criaturas da terra e do mar,
São os antigos deuses das florestas
Que há muito nós soubemos adorar.
Oh, os anjos são muitos! E hoje, em festa
Estão, no meu quarto, pois de sangrar
Cansaram-se, e por isso, lá do céu
Trouxeram a cabeça de Miguel!

Cantavam e dançavam, como amigos,
Jogando a cabeça de cá pra lá...
Depois, como faziam os antigos
Índios das tribos dos tupinambás,
Comeram a carcaça do inimigo!
E de uma boca cheia, ouvi: "Será
Que por ele, os derrotados virão?
Pois nada mais resta que os pés e as mãos!

'Os humilhados serão exaltados',
Assim um deus fraco um dia falou,
E exaltados fomos! pois humilhados
Éramos, e quando a guerra acabou,
Foi o nosso estandarte ensanguentado
Que no céu foi erguido, e quem olhou
Pra cima, viu da batalha o final:
Cem mil voando em marcha triunfal!

Duzentas mil asas negras batendo,
Duzentos mil pés numa alegre dança;
E aquele que há muito nos viu descendo,
Viu-nos subindo em busca de vingança,
E em glória estamos! Sim, hoje eu entendo
Do Diabo aquela perseverança...
'Irmão', disse a Miguel, 'Espere e veja...
Terei teu pescoço numa bandeja!'"